Os tratamentos atuais para o câncer de pâncreas enfrentam um limite claro: mesmo quando funcionam, perdem eficácia em poucos meses. O tumor se adapta, cria rotas alternativas e volta a crescer. É esse mecanismo de resistência que torna a doença uma das mais letais da oncologia.
Um estudo conduzido pelo Centro Nacional de Pesquisa Oncológica (CNIO), na Espanha, traz um avanço importante. A pesquisa mostra que é possível impedir o surgimento dessa resistência por meio de uma terapia tripla, ao menos em modelos animais.
Os resultados foram publicados na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e indicam um caminho para terapias combinadas capazes de melhorar a sobrevida de pacientes no futuro.
Na Espanha, mais de 10.300 novos casos de câncer de pâncreas são diagnosticados anualmente. A doença costuma ser detectada tardiamente e tem taxa de sobrevida em cinco anos inferior a 10%, reflexo direto da agressividade do tumor e da escassez histórica de opções terapêuticas eficazes.
O estudo foi liderado por Mariano Barbacid, chefe do Grupo de Oncologia Experimental do CNIO e um dos principais especialistas mundiais no gene KRAS, mutado em cerca de 90% dos casos de câncer pancreático.
Os primeiros medicamentos direcionados ao KRAS só foram aprovados em 2021, após décadas sem avanços relevantes além da quimioterapia. Embora inovadores, esses fármacos apresentam benefício limitado, justamente porque o tumor desenvolve resistência em poucos meses.
A abordagem do CNIO foi atacar o problema pela raiz. Em vez de bloquear o KRAS em um único ponto da via molecular, os pesquisadores decidiram travar três elos simultaneamente. Nos modelos de camundongos, essa estratégia levou ao desaparecimento completo e duradouro dos tumores.
Para isso, foi utilizada uma combinação de três agentes: um inibidor experimental de KRAS (daraxonrasib), um medicamento já aprovado para certos cânceres de pulmão (afatinibe) e um degradador de proteínas (SD36). Em todos os modelos testados de adenocarcinoma ductal pancreático, houve regressão tumoral significativa, sem toxicidades relevantes.
Apesar do impacto dos resultados, os autores são cautelosos. A terapia ainda não está pronta para ensaios clínicos, e sua adaptação para uso em humanos será complexa. Ainda assim, o estudo redefine o horizonte: a resistência ao tratamento pode deixar de ser uma sentença automática. E isso representa uma mudança real de paradigma.
